Meu encontro com grande jogador Garrincha

Conto publicado no livro do Concurso Literário dos médicos do Paraná  2018

SOBRAMES  PR (Sociedade dos Médicos Escritores)

A alegria de um povo; a tristeza de um homem.

Abril de 1998. Sábado dia 18. Fim de tarde. Cidade de Ipumirim, situada no meio oeste de Santa Catarina. 4.000 habitantes. No canto de um bar, solitário, com o olhar perdido em alguma direção, sentado em uma mesa com um copo de pinga em uma das mãos e um cigarro na outra, jazia num triste quadro, Manuel Francisco dos Santos, meu ídolo e de muitos milhões de brasileiros, conhecido internacionalmente como Garrincha, ”o anjo das pernas tortas”, “o mágico da bola” e principalmente “alegria do povo”, que com seus dribles desconcertantes e suas brincadeiras, levava os torcedores ao delírio, encantando a todos.

Enquanto eu o admirava, muito se passou em minha cabeça, de tantas lembranças e recortes de revistas e jornais que eu tinha dele.

Herói de duas copas do mundo, em 1958 e 1962, sendo que nessa última, praticamente foi o grande responsável pela conquista brasileira, além de inúmeras vitórias pelo Botafogo, clube que defendeu de 1957 a 1966, no qual teve seus maiores momentos como gênio do futebol. Passou por outros clubes grandes e pequenos, mas sem o mesmo brilho de outrora.

Garrincha foi considerado o mais habilidoso jogador que já existiu em todos os tempos, pois sua capacidade de driblar e envolver seus adversários era impressionante. Em 1998, foi escolhido para a seleção de todos os tempos da FIFA.

Mesmo na Seleção Brasileira, Garrincha nunca abandonou sua forma irreverente de jogar. Voltava a driblar o jogador oponente no mesmo lance, ainda que desnecessariamente, só pela brincadeira em si, levando a plateia a loucura.

Muito simples e sem instrução, sendo considerado o segundo melhor jogador do mundo, atrás apenas de Pelé, e jogando o que jogou, não conseguiu fazer fortuna, sendo explorado para jogar mesmo sem condições, principalmente nos tempos do Botafogo, com infiltrações frequentes em seus joelhos que padeciam de dor, devido a artrose acentuada. Jogava, encantava e a artrose piorava cada vez mais.

Sua história de decadência começou no final dos anos 60, depois de Mané não conseguir dar grande contribuição à seleção brasileira na Copa do Mundo de 1966. Garrincha deixou o Botafogo e peregrinou por vários cubes, sendo uma pálida figura de tempos passados, até o fim de sua vida profissional em 1972.

Daí começou a perambular pelo Brasil, junto com outros ex-jogadores profissionais em excursões caça níqueis, na qual ele sempre foi a atração e estrela principal, em espetáculos ao mesmo tempo bonitos e tristes, num time chamado ironicamente de “Milionários”, que de milionários tinha apenas a alegria e o futebol maravilhoso. E foi com este time que fui encontrá-lo nesta pequena cidade que dista 11 km da cidade de Arabutã, na qual fui médico por 17 anos.

Voltando a mim, após todos devaneios, fui célere em sua direção, com a emoção de um fã ao ver seu grande ídolo. Encontrei-o quieto fumando e tragando um gole de cachaça. Com os olhos inchados e olhar perdido, ele não estava muito a fim de conversa. Preferia ficar isolado no seu mundo. Não arranquei muitas palavras dele.

Creio que já devia estar cheio de conversar com estranhos. Fiquei um instante quieto também vendo sua figura.

Só esboçou um sorriso e alguma animação quando os outros jogadores foram chegando e foi um desfile de craques que jogaram pela seleção brasileira, e que eu jamais imaginei poder vê-los pessoalmente todos juntos. Djalma Santos, Djalma Dias, Ademar, Cafuringa, Dudu, Roberto, Paulo Borges, Tarciso e tantos outros, além do famoso massagista Mário Américo. Não pude mais chegar perto dele.

No dia seguinte, o dia do grande jogo com o time local, diante de uma plateia de mais de 5.000 torcedores, começou o jogo.

Garrincha entrou em campo…, mas tristemente pouco pode fazer, pois além de sua forma física não ser das melhores, o jovem lateral que o marcou estava disposto a não o deixar jogar. Nas poucas vezes que estava com a bola, a torcida ovacionava-o e ele mal saia do lugar. Ficou até o fim do primeiro tempo. Não voltou mais e ficou só assistindo o jogo.

Aí vem o lado interessante. Diante dos milhares de torcedores, foi realizado o sorteio de sua camisa, autografado por ele, e também por todos demais os jogadores e, por sorte, eu fui o ganhador.

Finalmente tive a oportunidade de chegar perto do meu grande ídolo e trocarmos um forte abraço e recebendo de suas mãos aquela camisa que conservo até hoje com muito carinho.

Nunca mais o vi ou soube dele.

Fui saber 6 anos depois, fiquei sabendo pela imprensa que ele, aos 49 anos, morando no Rio de Janeiro, ficou dias bebendo nos bares da sua vizinhança, voltou para casa, passando mal e foi levado para um sanatório em coma alcoólico, como um bêbado comum, vindo a falecer as seis horas do dia 20/01/1983.

Assim, sem reconhecimento, na pobreza e vítima de cirrose hepática, a estrela se apagou definitivamente.

Hoje pouco lembrado pela geração atual, Mané Garrincha, jamais será superado pela sua postura em campo e fora dele, pelas suas célebres tiradas, próprias de sua simplicidade, cantadas em versos, em livros biográficos, em maestrias de vídeos que nos enchem de alegria. A “alegria do povo”, o melhor ponta direita da história do futebol, mesmo com suas pernas tortas, jamais deverá ser esquecido.

 

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