HIV e AIDS são assuntos para o geriatra

O primeiro caso de Aids identificado no mundo foi em 1981, mas o vírus HIV (vírus da imunodeficiência humana) só foi identificado dois anos depois. Nessa época, era considerada uma doença dos chamados grupos de risco – os quatro Hs: homossexuais, hemofílicos, heroinômanos e haitianos (este último por ser o Haiti um local barato para turismo sexual de homossexuais masculinos norte-americanos naquela época). Agora, quase 40 anos depois, tudo mudou.

Ter o HIV não implica em desenvolver Aids, ou seja, ter manifesta a doença causada pelo vírus. Tampouco é um vírus restrito a grupos de risco. A Aids, como os especialistas na área costumam afirmar, não tem cara.

No Brasil, em 2018, foram diagnosticados 43.941 novos casos de HIV e 37.161 casos de Aids, uma taxa de detecção de 17,8/100.000 habitantes. Até junho de 2019, foram notificados, no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), do Ministério da Saúde, desde o início da epidemia da doença, 966.058 casos de Aids no país. Desse total, dois terços são do sexo masculino.

Embora a maior concentração dos casos esteja entre a faixa etária de 25 a 39 anos, com 52,4% dos casos, tem aumentado a detecção em idosos. Acima dos 60 anos, foram 1.655 novos casos em 2018, um aumento em relação a 2017, quando foram registrados 1.479. A cidade de São Paulo, que apresentou redução nos números gerais de infecção por HIV, registrou aumento apenas na faixa etária acima dos 60 anos.

Como a maior parte dos casos ainda é entre jovens, as campanhas de prevenção são feitas para falar com esse público. Para a infectologista Aline Pamela Vieira de Oliveira, os idosos deveriam ser alvo de uma campanha específica. “HIV e Aids ainda são assuntos tabus na nossa sociedade, especialmente entre essa geração de idosos. Uma campanha específica para essa população seria interessante para despertar a curiosidade, interesse e confiança dessas pessoas para esse tema. Tanto em relação aos cuidados preventivos, como para a importância da testagem para diagnóstico precoce”, afirma.

A falta de uma discussão aberta sobre sexualidade e os riscos das doenças transmissíveis, incluindo a Aids, é uma das principais causas para esse aumento da contaminação entre essa faixa etária da população – que viveu a fase de desconhecimento e preconceito da doença, vista, quando surgiu, como “praga gay”. “É preciso lembrar que a atual geração de idosos tem vida sexual ativa e precisa se prevenir”, diz a especialista.

Evitar a contaminação dos idosos por HIV envolve alguns desafios, apontados pela médica. “Primeiro, a dificuldade do diagnóstico, porque muitos nunca fizeram o teste e  mesmo o médico que acompanha o idoso não se sente à vontade para solicitação”, cita. Em seguida, a dificuldade de aceitação do diagnóstico costuma ser um grande complicador para evitar que se desenvolva a Aids. “Muitos têm vergonha dos filhos e netos e com isso se sentem sozinhos e perdidos com a situação. Isso gera medo e desespero frente ao diagnóstico por falta de informação sobre a evolução da doença”, explica.

Também, Aline cita a dificuldade na medicação devido à polifarmácia. “A maioria dos idosos já faz uso de várias medicações e terá que acrescentar mais comprimidos à rotina diária. Além disso, em idosos, algumas medicações usadas no tratamento do HIV podem levar a distúrbios renais, ósseos, cardíacos. Sendo assim, se faz necessário uma análise individualizada do melhor tratamento para cada paciente, levando em conta as doenças prévias e o potencial de efeitos adversos a curto, médio e longo prazo”, orienta.

Diante desse cenário, o geriatra continua sendo o profissional-chave para a detecção do HIV de forma precoce. “É essencial que ele discuta a questão da sexualidade nas consultas e inclua a testagem para DSTs nos exames de rotina”, diz a infectologista. Portanto, falar sobre uso de preservativo, PrEP (profilaxia pré-exposição) e PEP (profilaxia pós-exposição ao HIV) deve se tornar rotina nos consultórios.

Fonte: SBGG – SP

 

 

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