Chegar aos 80 não significa que o vovô é incapaz; aprenda a não subestimar o idoso

Chegar aos 80 não significa que o vovô é incapaz; aprenda a não subestimar o idoso

Impedir que o idoso more sozinho ou cuide das próprias tarefas gera uma relação conflituosa com a família

“O meu espírito é de juventude. Não me entrego à velhice”, decreta Catarina. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

“Meu pai tem 80 anos, não pode mais sair de casa sem ajuda”; “Minha mãe é de idade, não deveria mais morar sozinha”. Segundo o geriatra Carlos Sperandio, médico do hospital Santa Cruz, as frases citadas são rotina no consultório. Mas, o que ele, e todos os especialistas em geriatria, gostariam que os familiares soubessem é: a idade do paciente é o que menos importa durante a consulta, embora seja a preocupação principal da família que acompanha os avôs e avós nos encontros médicos.

“As famílias se queixam que o idoso quer dirigir, quer morar sozinho, quer continuar cozinhando e começa uma queda de braço. Nós da geriatria entramos aí. O mais importante é fazer uma análise da capacidade funcional do paciente, vendo a sua autonomia e independência. A idade não entra nessa conta”, reforça o especialista.

Exemplo de autonomia e independência é a Catarina Fonseca Cortellete, de 86 anos. A ex-funcionária pública e, agora, aposentada, Catarina mora sozinha há nove anos e fala com carinho da preocupação dos filhos sobre toda a liberdade que mantém.

“Minha filha, principalmente, se preocupa bastante comigo saindo sozinha, porque tem medo que eu caia na rua, mas eu sou muito teimosa e não obedeço. Eu conheço todos os taxistas perto da minha casa, e eles me conhecem. Quando vou à feira, pego o táxi em casa, que me deixa na porta e volto certinho”, conta Catarina, em entrevista ao Viver Bemdepois de uma aula de ginástica no espaço Vivere Bene, em Curitiba, local voltado para atividades de bem-estar físico e mental para pessoas na terceira idade.

"Sou muito teimosa, não obedeço", diz Catarina, sobre as ordens que recebe dos filhos. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

“Sou muito teimosa, não obedeço”, diz Catarina, sobre as ordens que recebe dos filhos. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

Em casa, Catarina diz que cozinha, arruma toda a bagunça e só recebe ajuda na limpeza a cada 15 dias. Nos fins de semana, a família está sempre por lá. A preocupação dos filhos e netos é visto por ela como interesse e preocupação, mesmo quando há insistência.

“Tudo que eu posso fazer sozinha, eu faço. Enquanto eu puder me defender, eu vou continuar. O meu espírito é de juventude, não me entrego à velhice”, diz.

Autonomia e independência

Antes de declarar que o avô ou a avó não podem fazer alguma coisa ou precisam de ajuda extra com qualquer atividade, duas condições deverão ser avaliadas pelo médico geriatra: independência e autonomia. A primeira diz respeito às capacidades motoras do paciente, se ele consegue se movimentar sozinho sem qualquer problema. A autonomia se refere às capacidades cognitivas, aos pensamentos e atitudes.

“Se, depois de avaliado, o idoso demonstrar que não tem nenhum tipo de dependência, a sua independência deve ser respeitada pela família. E isso é muito comum, de a pessoa passar pela avaliação e provar que está apta a viver sozinha. Nesse caso, os geriatras se posicionam em defesa do idoso e falamos para a família: nesse momento, ele não precisa de alguém junto, pode morar sozinho e fazer suas escolhas financeiras. Porque é comum o familiar ficar angustiado com os gastos do idoso”, reforça Carlos Sperandio, médico geriatra.

No espaço Vivere Bene, idosos realizam atividades voltadas ao bem-estar físico e mental. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

No espaço Vivere Bene, idosos realizam atividades voltadas ao bem-estar físico e mental. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

Sempre que houver dúvidas, porém, se é seguro ou não deixar o avô sozinho, procure ajuda profissional. E mesmo quando há dependência, o idoso não deve ser excluído de toda e qualquer tarefa. De acordo com Luis Antonio da Silva Sá, médico geriatra do hospital Pilar e professor da Faculdade Evangélica de Curitiba, é essencial que a família não retire a sensação de ser “útil” do avô. “Ele pode não fazer tudo, mas pode perfeitamente ser responsável por atividades menores, como secar a louça, dobrar a roupa. Isso é muito importante, além do respeito, carinho e a boa convivência”, explica Sá, que também é especialista em memória.

De filho para pai

Outra situação comum nos consultórios geriatras é ver a inversão de papeis, o que não deveria existir. Filhos que se sentem pais dos próprios pais geram uma sensação de tolhimento do idoso. “Quando o pai vai morar com o filho, meio que de favor, ou se os filhos vieram viver com os pais, e acabam assumindo o papel do pai, vira uma relação conflituosa. Porque o velho era quem mandava, era o cabeça, e agora não manda mais nada, o filho assume tudo. Isso é muito doloroso e sofrido para o idoso”, diz Luis Antonio, médico geriatra.

A orientação dos especialistas é para que, ao invés de “mandar” no próprio pai ou mãe, converse com eles. “Você continua sendo o filho e seu pai tem a autonomia dele. Ele toma as decisões. O que você pode fazer é trocar uma ideia, sugerir, mas não mandar. A palavra final é do idoso”, explica Carlos Sperandio, médico geriatra.

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